REENCANTADO


Como se reencanta um mundo

ou a si mesmo?

Na aridez que eu fico quando algumas coisas acontecem, 

que tiram as minhas cores, 

e me fazem questionar o sentido de tudo


às vezes, depois de ter tentado de quase tudo a gente se firma na fé

não uma fé grande e exterior 

mas uma pequena chama de fé, 

de milagres pessoais possíveis

chama de vela acesa por vó


Uma fé pessoal no navegar do caminho e de que se tá muito ruim, talvez seja a roda da fortuna, ou algum monstro marinho, que te derruba do bote mas não vai te devorar, vai te levar lá pra baixo no fundo das águas onde você encontra um respirador ou o remo que você deixou cair por descuido, 

e aí de alguma forma agora você voltar pra continuar a travessia


arte é a magia que me permite reencantar um mundo desolado e árido 

depois da sua partida, das suas partidas


poesia é a ferramenta e também a própria matéria com o qual eu construo de novo minha casa, meu jardim, moldo meu sorriso e meu sentido

e faço eles serem reais


as palavras são meu feitiço de reparação 

meu canto

meu recanto 

e meu reencanto


com elas eu invento um porque você chegou,

e um porque você foi embora

e um porque você voltou

e um porque foi embora de novo


e eu crio também um porque eu precisei viver tudo isso, 


e mais importante eu criou um universo onde nada isso importa mais 

mesmo que importe


No inesgotável da magia eu consigo criar um motivo para tudo 

mas não apenas um motivo, um jeito das coisas funcionarem diferente, 


eu lanço um feitiço sobre mim mesmo que me faça gostar um pouco mais de mim,

que defina os meus limites, onde podem ou não pisar

e encanto minha boca para que eu nunca mais peça ou aceite migalhas

suas ou de ninguém


magia não se faz com migalhas,

se faz com a pedaços inteiros e órgãos como cérebro e coração, 

e patas, asas, essas partes dos corpos que se tocam e criam conexões,


eu crio um novo eu que dependa menos dos outros e da opinião deles,

eu crio um novo eu mais feliz, que possa brilhar


Pouco me resta mas a magia é a arte dos despossuídos,

eu fiz tudo que eu podia, pras coisas serem do jeito que eu queria,

o que restou?

o que eu posso fazer com tudo aquilo que eu vivi, 

além de de fato fazer algo com tudo aquilo que eu vivi, 


que sejam a poesia

que brote de dentro de mim, 

que flores saiam da minha boca, 

um desabrochar poeta, 


nunca pronto, mas o velho em mim é o medo do novo,

e esse medo eu não quero mais 

coragem é encanto, é palavra, é floresta

onde moram os encantados (e as encruzilhadas)

Eu me enfeitiço de coragem e poesia 


e meu peito, 

meu corpo, 

eu todo inteiro fico 

reencantado

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